Gosto de escrever mais do que poderia descrever. Excita-me ter o controle das palavras, consola-me saber bem onde colocá-las. Deveria, penso eu, escrever sempre que pudesse. Não apenas como exigência de minha profissão, mas como um hobby descompromissado, como válvula de escape - pequenas doses de textos calmantes em dias tumultuados. Mas não escrevo. É o tempo. Será? Talvez sejam minha mãos. Não sei. Sei apenas que, como num quadro de Dalí, sinto ponteiros e horas escorrerem por meus dedos e, inutilmente, agarro-me a eles, procurando um vão no qual eu consiga encaixar as palavras até então enclausuradas apenas em minha mente. Sem sucesso, esvai-se o tempo, e eu, conformada, digo que “é a falta de tempo que não me permite escrever mais”. Acostumo-me a simplesmente deixar as palavras irem embora. Exatamente como teria acontecido com este exato texto que agora escrevo, se eu não tivesse tido a coragem de admitir que, caso eu queira, o tempo pode esperar um pouquinho antes de pingar no chão.
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